Chega. Pedi demissao. Vou voltar pra casa. Mais uma vez a vontade de estar em outro lugar que nao onde estou agora me tomou de assalto. E' quase um vicio: chegar, abrir a porta, curtir a festa, partir. Encontrei minha melhor amiga sul-coreana dia desses. Nao a via desde 2001, quando viajamos por toda Coreia do Sul. Gastamos horas conversando sobre todas as coisas, nossas vidas, os caminhos que elas tomaram, as pessoas. As pessoas! Eu amo as pessoas. Elas fazem todo o sentido. Todas as respostas estao nas pessoas e a maioria das pessoas nao percebe. E' dificil, eu sei. So' as pessoas te fazem humanista, te conduzem ao divino, te enterram no inferno. Como e' sublime ser conduzido ao divino! Como e' divino ser enterrado no inferno! Budista, Young Soon (que lindo nome o dela) tem a percepcao afiada. Por isso nossa conversa foi tao longe. Algumas pessoas nao precisam de muito tempo para ir tao longe. Gostei quando ela me chamou de "traveling soul". Ela sacou perfeitamente o meu desespero em chegar e partir, conhecer, consumir, ver, observar, conduzir, entregar-se, despreender-se, LIBERTAR-SE. E ainda assim tudo parece ser bem menos do que poderia ter sido feito. Mas e' do realizado que se obtem a felicidade.
Pedir demissao e' muito doloroso pra mim. Eu nao gosto de pedir demissao. E' como dizer nao. Porque significa partir. E nas minhas partidas muita gente fica pra tras. Me vejo obrigado a deixar na estacao muita gente que gostaria que subisse no trem comigo. E' tao egoista... porem tao sincero. Vida de trem: assim disse meu gerente la' do restaurante. Levamos vida de trem. Uns descem, outros sobem, uns ficam nas fotografias, outros viajam junto. E ai' eu me pressiono demais. O que estou fazendo comigo? Por que vou vivendo assim? Qual coragem a minha? Qual fraqueza? Sou corajoso por partir ou fraco por nao resistir? Por que eu mesmo causo minhas dores? Porque eu mesmo ofereco minhas curas. O que as pessoas representam pra mim? E o que eu represento para as outras pessoas? Algo. Nada. Ou tudo. Nada ou tudo e' assustador. Puta que pariu, nada ou tudo e' muito assustador.
Mas e' uma decisao tomada. Eu gosto das decisoes tomadas. Implica um monte de coisas que preciso agora de mais 15 latas de cerveja para lista-las. E o meu dinheiro acabou e nao tenho como compra-las. Vai fiado? Algum camarada vai me comprar um pacote de 12 latas. Certeza!
Alias tomei muita cerveja no ultimo mes. Todas as noites. Quero dizer, TODAS as noites, entende? Qual a desculpa? Hummm... proximidade da partida; fuga da realidade; diversao; gosto de cerveja mesmo.
Sinto muito por nao ter escrito tanto quanto eu gostaria de ter escrito. Ja' disse antes. Mesmo que tivesse um laptop nas maos 24 horas ao dia, ainda assim nao teria escrito tudo o que gostaria de compartilhar. Alguns entendimentos sao tao proprios que nao ha' como compartilhar. Por mais que eu queira. E' preciso parar e deixar cada um seguir na onda que melhor aparecer. E eu vou `as lagrimas quando nao consigo dizer tudo. Porque nao e' tudo que precisamos compartilhar. Nao por nos mesmos. Mas porque cada um segue numa fase diferente, numa levada diferente, num nivel diferente de entendimento. De forma que o mais simples e lindo chega a nao fazer sentido algum. Eu nao posso deixar o mais simples nao fazer sentido algum. Prefiro conserva-lo ate' que o faca. E' um grande problema esse. Calar-se. Eis o maior aprendizado do isolamento. Da solidao.
Ouvir. Observar. Sair do proprio corpo. Render-se. Refletir. Refletir: fazer retroceder, desviando da primeira direção; reproduzir; espelhar; retratar; revelar; repercutir; pensar; ter influência; produzir efeito; ponderar; observar; objectar; incidir; recair; repercutir-se; transmitir-se.
Quer saber, amanha vou subir a montanha. Ela esta' linda. Coberta de neve, reluzindo o sol. Eu preciso pegar o carro e subir. Sim, e' o que vou fazer. Agradecer e exaltar o meu tempo.
La' eu tento me despedir dos meus dias angelenos.
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
Os textos estao mudos
Eles sao educados. Silenciosos. Dao passagem para pedestres e automoveis. Andam vagarosamente pela calcada. Compartilham o cafe da manha e o lanchinho da tarde. Sao pacientes: 8h00 da manha estao plantados na porta da CBS; 17h00 tambem. Eles sao os grevistas mais comentados dos ultimos tempos. Sao os roteiristas de Hollywood. Os caras que escrevem toda a palhacada e as coisas legais que o mundo inteiro ve. Cada pessoa desse planeta sabe dizer "porra, aquele filme tem uma frase...". Eles exibem diariamente cartazes com o desenho de um punho cerrado segurando uma caneta. E distribuiram por toda Los Angeles outdoors dizendo "Studios, do the write thing!". Muito bem sacado.
Texto e' tudo e os textos estao parados, engavetados. Angelina Jolie falando besteira perde (grande) parte do charme. Brad Pitt dizendo idiotices fica sem graca (ou nao?). Varios programas de televisao estao atrasados porque os atores nao (tem) sabem o que falar. E' uma greve interessante. Sem abrir a boca voce tem o poder de calar a todos. E' so' uma questao de atitude. Se vai dar resultado ou nao, essa e' outra cronica...
Uma amiga que conheci bem pouco tempo atras - roteirista, cineasta e antropologa - me chamou de observador participante. O que os antropologos diriam de "afetado" pela cena. No sentido de que o afeto e' fundamental e eu me envolvo com cada momento meu. Puts, ela esta' certa. Eu sou assim. Um roteirista da CBS foi almocar no restaurante dia desses. Quando me vi, ja' estava entupindo o cara de perguntas. Ele me explicou que os roteiristas estao em greve porque ganham menos de 1% do produto final - o filme. Em termos de porcentagem, deve ser uma merreca mesmo. Os diretores ganham milhoes. Os atores ganham bilhoes. A industria ganha trilhoes. Os caras que sao o principio de qualquer historia... bem, esses sao os grevistas. Lembrei agora de uma entrevista de Charles Bukowski, que encontrei na internet, onde ele diz que viveu tudo porque sempre ha' algo para ser dito. Por isso ele se envolveu com tantos momentos.
Enfim, todas as manhas eu caminho por entre os grevistas. Estaciono meu carro na quadra atras da CBS. Caminho um pouco pela Beverly ate' o cruzamento com a Fairfax. E naquela esquina mora uma mendiga, no ponto de onibus. Uma senhora. Largada, suja, fetida. Nuvens ou sol, embaixo de um cobertor encardido. Tudo o que ela tem sao alguns trapos guardados num carrinho de supermercado e uma mala de viagem bem velha. Sempre sentada, esperando alguma coisa. Nos ultimos dias ela tem comido uns hamburgueres. Nao sei como. Talvez alguem passse por la' e garanta a refeicao. Ainda nao descobri onde ela faz as necessidades fisiologicas. Eu devo ter virado mais um no cotidiano dela. Muito embora ela ainda nao tenha olhado pra mim. Ao menos nao percebi.
Quando atravesso o farol, tem outra mendiga do lado de la'. Morando no ponto de onibus da esquina oposta. Ela esta' sempre lendo um livro. Isso naturalmente me deixa muito curioso. Ja' tive vontade de parar e trocar aquele papo. Mas o cheiro me impede. Mesmo que o meu estomago esteja vazio, temo pelo pior. Vou me superar. Ela e' o tipo de pessoa que vale a pena puxar uma conversa, certeza.
Passos adiante, roteiristas-grevistas manifestam surdamente. Ninguem escreve sobre as mendigas de Los Angeles. Acho que elas nao interessam a ninguem.
Texto e' tudo e os textos estao parados, engavetados. Angelina Jolie falando besteira perde (grande) parte do charme. Brad Pitt dizendo idiotices fica sem graca (ou nao?). Varios programas de televisao estao atrasados porque os atores nao (tem) sabem o que falar. E' uma greve interessante. Sem abrir a boca voce tem o poder de calar a todos. E' so' uma questao de atitude. Se vai dar resultado ou nao, essa e' outra cronica...
Uma amiga que conheci bem pouco tempo atras - roteirista, cineasta e antropologa - me chamou de observador participante. O que os antropologos diriam de "afetado" pela cena. No sentido de que o afeto e' fundamental e eu me envolvo com cada momento meu. Puts, ela esta' certa. Eu sou assim. Um roteirista da CBS foi almocar no restaurante dia desses. Quando me vi, ja' estava entupindo o cara de perguntas. Ele me explicou que os roteiristas estao em greve porque ganham menos de 1% do produto final - o filme. Em termos de porcentagem, deve ser uma merreca mesmo. Os diretores ganham milhoes. Os atores ganham bilhoes. A industria ganha trilhoes. Os caras que sao o principio de qualquer historia... bem, esses sao os grevistas. Lembrei agora de uma entrevista de Charles Bukowski, que encontrei na internet, onde ele diz que viveu tudo porque sempre ha' algo para ser dito. Por isso ele se envolveu com tantos momentos.
Enfim, todas as manhas eu caminho por entre os grevistas. Estaciono meu carro na quadra atras da CBS. Caminho um pouco pela Beverly ate' o cruzamento com a Fairfax. E naquela esquina mora uma mendiga, no ponto de onibus. Uma senhora. Largada, suja, fetida. Nuvens ou sol, embaixo de um cobertor encardido. Tudo o que ela tem sao alguns trapos guardados num carrinho de supermercado e uma mala de viagem bem velha. Sempre sentada, esperando alguma coisa. Nos ultimos dias ela tem comido uns hamburgueres. Nao sei como. Talvez alguem passse por la' e garanta a refeicao. Ainda nao descobri onde ela faz as necessidades fisiologicas. Eu devo ter virado mais um no cotidiano dela. Muito embora ela ainda nao tenha olhado pra mim. Ao menos nao percebi.
Quando atravesso o farol, tem outra mendiga do lado de la'. Morando no ponto de onibus da esquina oposta. Ela esta' sempre lendo um livro. Isso naturalmente me deixa muito curioso. Ja' tive vontade de parar e trocar aquele papo. Mas o cheiro me impede. Mesmo que o meu estomago esteja vazio, temo pelo pior. Vou me superar. Ela e' o tipo de pessoa que vale a pena puxar uma conversa, certeza.
Passos adiante, roteiristas-grevistas manifestam surdamente. Ninguem escreve sobre as mendigas de Los Angeles. Acho que elas nao interessam a ninguem.
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
Madrugada
Lindsey e' loira, seios fartos, alta, sorridente, chega sempre primeiro das outras. Ruth, baixinha, gordinha, adora falar sobre qualquer assunto. Farah e' morena dos tons paquistaneses, cabelos pretos, lisos, olhos amendoados como os das mulheres centro-asiaticas, conservando ares de misterio. Filhas da classe trabalhadora americana, de pais imigrantes que fazem turnos estonteantes nas fabricas californianas. Vinte e alguns anos de idade. Nao terminaram o colegial. Nem querem. Girls just wanna have fun. Entraram na fila do restaurante e jantaram com uma fome violenta. Lindsey pagou tudo. Ficamos felizes quando Lindsey voltou para validar o cartao do estacionamento. Ela e' daquelas garotas usam seus contornos so' para dizer "estou aqui". Foram embora sem deixar rastro... nem telefones.
Quando fechamos o restaurante, Alejandro - um mexicano que ama rap - me chamou para uma cerveja. Tomamos num dos bares do mercado. Ele e' sonhador, entende de rap. Esta' aqui para trabalhar e gravar suas musicas. Ate' me mostrou varias delas, muito boas. Nas viagens de onibus, vai sempre gravando as ideias no celular. E ele tem melhorado o ingles cada vez mais, por isso se sente livre para sair e conhecer pessoas. Ele nao gosta da mentalidade da maioria dos mexicanos de Los Angeles, que vive aqui nos subempregos apenas para jundar dinheiro e mandar pra casa. Ele viu em mim uma interseccao: a vontade de viver coisas legais e aproveitar a graninha da melhor maneira possivel.
O bar fecha cedo, entao fomos tomar outras cervejas no segundo bar do mercado, onde estava rolando um karaoke. Alejandro queria subir no palco, exercer o seu rap, torcer para alguem importante estar por la'. Ele so' precisava de um conhecido na plateia. Eu, claro, que sou ponta firme. Viramos nossas bud e Zay G (o nome artistico dele...) colocou seu nome na lista. Escolheu Eminem e mandou muito bem. Quando ele desceu, foi ate' bastante cumprimentado. E nao e' que uma cantora estava presente e trocou cartao com ele??? Ela canta profissionalmente na noite angelena e o convidou para fazer alguma coisa juntos. Quem sabe. Espero que ele nao se esqueca de mim quando for famoso.
Zay G voltou pra mesa e demos de cara com... Lindsey, Ruth e Farah. Pronto, a noite estava desenhando algo interessante. Ate' ai' nao tinhamos nos apresentado ainda, mas comecamos a conversar assim mesmo. Elas ja' tinham bebido muito mais do que a gente. E as mesas nessa altura estavam todas "integradas". Pareciamos amigos de longa data, incluindo outros caras perdidos por la'. Sempre vai chegando mais um(a). As tres e outras garotas se animaram para fazer um set de Spice Girls. Posso dizer que executaram com muita desenvoltura. Ruth tambem adora rap e adorou a apresentacao de Alejandro. Ruth morreu de inveja quando soube que fui ver Public Enemy, Cypress Hill, Wu Tang Clan e Rage Against the Machine na mesma noite. Ali ganhei a amizade e a confianca dela. Mas, de novo, o bar fecha cedo - um verdadeiro problema aqui em Los Angeles.
Resolvemos procurar outro bar. Lindsey, sempre na frente, procurando tomar conta da situacao (pois sabe que nos, babacas, vamos atras), disse que queria ir num clube de strip tease. Ficamos com aquela cara de "hum... que roubada...". Eu indiquei o Body Shop, na Sunset Strip, mas Lindsey pensou no Girls, Girls, Girls, em Hollywood. Evidentemente ela venceu. Nos juntamos em dois carros e fomos. Eu dirigindo o meu carro e ela, o dela. Acontece que o Girls, Girls, Girls, naquela hora da madrugada, nao vendia mais bebida alcoolica. Pior: 20 dolares so' pra entrar. Sem chance. Fiquei meio injuriado. Queria beber cerveja num lugar bacana. Mas ela insistiu na ideia e bateu o pezinho dizendo que queria procurar alguma coisa na Vermont. Ela estava meio no grau e disse que nao sabia ir pra Vermont. Um doce desnecessario. Entao eu fui na frente e ela me seguiu. Chegamos na Vermont e nao encontramos nada de interessante, pois a Vermont ja' esta' no final de Hollywood. Ela abasteceu o carro e, no posto de gasolina, falei com Alejandro: "cara, essa loira ta' me deixando puto".
Entre uma e outra chamada pelo celular, decidimos partir finalmente pra Sunset, o meu lugar de preferencia em Los Angeles. E' claro que encontramos um bar aberto. Um lounge legal, cheio de sofas, musica e tal. Finalmente conseguimos tomar outras rodadas de cerveja. Eu confesso que fiquei bodeado com Lindsey e gastei meu tempo conversando com Ruth. Essa sim sabe conversar. Infelizmente para uma falta cerebro e para outra, beleza. Coisa comum de acontecer pelas madrugadas. Ruth nao ficou mais bonita por causa das cervejas, mas o papo rendeu bastante. Ela me contou tudo sobre as meninas: as drogas, as fugas de casa e da escola, as revoltas contra os americanos conservadores, a musica, Bush e as guerras. Nao lembro exatamente da consistencia do dialogo.
O bar fechou de novo.
Nao deu nem tempo para a ultima rodada de cerveja.
Lindsey ainda queria entrar num strip club e pediu o Body Shop.
Nao obrigado, agora vou pra minha casa.
Quando fechamos o restaurante, Alejandro - um mexicano que ama rap - me chamou para uma cerveja. Tomamos num dos bares do mercado. Ele e' sonhador, entende de rap. Esta' aqui para trabalhar e gravar suas musicas. Ate' me mostrou varias delas, muito boas. Nas viagens de onibus, vai sempre gravando as ideias no celular. E ele tem melhorado o ingles cada vez mais, por isso se sente livre para sair e conhecer pessoas. Ele nao gosta da mentalidade da maioria dos mexicanos de Los Angeles, que vive aqui nos subempregos apenas para jundar dinheiro e mandar pra casa. Ele viu em mim uma interseccao: a vontade de viver coisas legais e aproveitar a graninha da melhor maneira possivel.
O bar fecha cedo, entao fomos tomar outras cervejas no segundo bar do mercado, onde estava rolando um karaoke. Alejandro queria subir no palco, exercer o seu rap, torcer para alguem importante estar por la'. Ele so' precisava de um conhecido na plateia. Eu, claro, que sou ponta firme. Viramos nossas bud e Zay G (o nome artistico dele...) colocou seu nome na lista. Escolheu Eminem e mandou muito bem. Quando ele desceu, foi ate' bastante cumprimentado. E nao e' que uma cantora estava presente e trocou cartao com ele??? Ela canta profissionalmente na noite angelena e o convidou para fazer alguma coisa juntos. Quem sabe. Espero que ele nao se esqueca de mim quando for famoso.
Zay G voltou pra mesa e demos de cara com... Lindsey, Ruth e Farah. Pronto, a noite estava desenhando algo interessante. Ate' ai' nao tinhamos nos apresentado ainda, mas comecamos a conversar assim mesmo. Elas ja' tinham bebido muito mais do que a gente. E as mesas nessa altura estavam todas "integradas". Pareciamos amigos de longa data, incluindo outros caras perdidos por la'. Sempre vai chegando mais um(a). As tres e outras garotas se animaram para fazer um set de Spice Girls. Posso dizer que executaram com muita desenvoltura. Ruth tambem adora rap e adorou a apresentacao de Alejandro. Ruth morreu de inveja quando soube que fui ver Public Enemy, Cypress Hill, Wu Tang Clan e Rage Against the Machine na mesma noite. Ali ganhei a amizade e a confianca dela. Mas, de novo, o bar fecha cedo - um verdadeiro problema aqui em Los Angeles.
Resolvemos procurar outro bar. Lindsey, sempre na frente, procurando tomar conta da situacao (pois sabe que nos, babacas, vamos atras), disse que queria ir num clube de strip tease. Ficamos com aquela cara de "hum... que roubada...". Eu indiquei o Body Shop, na Sunset Strip, mas Lindsey pensou no Girls, Girls, Girls, em Hollywood. Evidentemente ela venceu. Nos juntamos em dois carros e fomos. Eu dirigindo o meu carro e ela, o dela. Acontece que o Girls, Girls, Girls, naquela hora da madrugada, nao vendia mais bebida alcoolica. Pior: 20 dolares so' pra entrar. Sem chance. Fiquei meio injuriado. Queria beber cerveja num lugar bacana. Mas ela insistiu na ideia e bateu o pezinho dizendo que queria procurar alguma coisa na Vermont. Ela estava meio no grau e disse que nao sabia ir pra Vermont. Um doce desnecessario. Entao eu fui na frente e ela me seguiu. Chegamos na Vermont e nao encontramos nada de interessante, pois a Vermont ja' esta' no final de Hollywood. Ela abasteceu o carro e, no posto de gasolina, falei com Alejandro: "cara, essa loira ta' me deixando puto".
Entre uma e outra chamada pelo celular, decidimos partir finalmente pra Sunset, o meu lugar de preferencia em Los Angeles. E' claro que encontramos um bar aberto. Um lounge legal, cheio de sofas, musica e tal. Finalmente conseguimos tomar outras rodadas de cerveja. Eu confesso que fiquei bodeado com Lindsey e gastei meu tempo conversando com Ruth. Essa sim sabe conversar. Infelizmente para uma falta cerebro e para outra, beleza. Coisa comum de acontecer pelas madrugadas. Ruth nao ficou mais bonita por causa das cervejas, mas o papo rendeu bastante. Ela me contou tudo sobre as meninas: as drogas, as fugas de casa e da escola, as revoltas contra os americanos conservadores, a musica, Bush e as guerras. Nao lembro exatamente da consistencia do dialogo.
O bar fechou de novo.
Nao deu nem tempo para a ultima rodada de cerveja.
Lindsey ainda queria entrar num strip club e pediu o Body Shop.
Nao obrigado, agora vou pra minha casa.
terça-feira, 27 de novembro de 2007
Todo dia e' hoje
Depois de beber muita cerveja, acordei com uma vontade incrivel de cair na estrada. Mas assim uma estrada long road, endless, daquelas que a gente roda ate' o carro nao servir mais pra nada. Na verdade eu queria dirigir ate' o Alasca. Legal, gostei da ideia. Agora eu quero ir pro Alasca. Ancorage. Monte Denali. Deve ser demais. Enquanto nao largo tudo pra fazer isso tambem, enchi o tanque do carro e peguei a Pacific Coast Highway, sentido sul. O maximo que conseguiria: duas horas ate' San Diego. Sai' de casa com a praia de La Jolla na cabeca.
Outono. O sol brilhando e o vento frio. Sempre seco. Ate' ai', tudo bem, porque e' seco tambem no calor. Acontece que a janela da estrada e' implacavel comigo. A estrada beirando o oceano. Injeta na minha cabeca uma quantidade absurda de pensamentos para o futuro, de analises do presente e de lembrancas do passado. As lembrancas do passado sao crueis, no sentido de que as boas memorias duelam com as ruins. E as ruins sempre tendem a vencer, uma vez que vao direto na jugular. Magoam muito. Entao eu saio da briga e fico com as boas, pois elas fazem-me sentir um verdadeiro felizardo, um vencedor. Ai' eu lembro o quanto eu gosto da minha vida, de mim e das pessoas do meu convivio. Eu nao tenho o direito de reclamar, pois a maior ficha que aprendi e' que as coisas se resolvem. De um jeito ou de outro, mas se resolvem. Entao estou livre e consigo retomar os meus sentidos para apenas sentir o cheiro do ar que respiro, as cores que vejo, o tempo que gasto.
E a grande equacao do presente, a trave que me sustenta, o corretor que coloca tudo em seu devido lugar, me foi dada de graca pela sensibilidade de uma crianca. Sem eu pedir. Meu filho apenas me deu a chave que os adultos nao conseguem usar, nem eu. Mas tento, juro. Durante um banho fraterno, debaixo da agua morna, com todo o amor puro que um pai e um filho podem trocar, ele me disse assim: "pai, pensa bem, todo dia e' hoje. Nao tem amanha, pois quando chegar amanha voce vai me dizer que e' hoje. Entao nao existe amanha. Todo dia e' hoje." Obvio, simples, direto, curto, sem firulas. "Todo dia e' hoje" e' a frase mais inteligente que ouvi em toda a minha vida. Ele sacou tudo sem precisar ler O Poder do Agora, que custei a deglutir meses depois. Tomara que a sociedade nao interfira na consciencia dele.
O fato e' que cheguei em La Jolla e tomei uma cerveja para curar a ressaca da noite anterior. Cheia de pedras e pequenos penhascos, La Jolla e' um convite para aqueles que querem ficar em silencio ao som do mar e apenas olhar quao longe e' o horizonte. O dia foi lindo. Encontrei a minha rocha e sentei. Fiquei pensando que chegaria na Asia se pulasse ali e saisse nadando ate' a outra margem do oceano. Puxa, os primeiros navegadores realmente eram destemidos. Cair no mar so' pra ver onde vai dar exige uma capacidade de despreendimento de poucos. Tao assustador como entrar numa nave apontada para qualquer constelacao acima das minhas orelhas e partir. Acho que eu partiria. Se extra-terrestres me fizessem o convite, acho que Vitor e Dante entenderiam.
E as gaivotas? Como e' possivel fazer voos baixos como aqueles? Rentes `a superficie. Alias, como e' possivel voar??? Voar e' do caralho. Os seres vivos que voam sao melhores que os outros. Estao acima da media. Sao incomparaveis, porque eles sempre -EM QUALQUER SITUACAO, SOB QUALQUER ARGUMENTO - poderao dizer: "ah, mas eu posso voar". "Eu posso voar" acaba com qualquer conversa. E ponto final.
De forma que o brilho do sol criou, sobre a agua do mar, uma trilha de cacos de espelhos refletindo bem na minha direcao. E eu pensei "como alguma magoa existe em mim se o que esta' sendo oferecido `a mim e' divino?" "como eu posso querer fazer algum plano para o futuro se este instante e' unico, irreversivel e so' meu?" Lembrei que vinte anos atras a vida dobrou uma esquina sem a minha consulta ou permissao. E passou tao rapido... Tentei me imaginar vinte anos adiante lembrando da tarde em La Jolla. A existencia e' grande demais para evitar o presente. Nao ha' nada antes nem depois. Todo dia e' hoje. Todo dia e' hoje. Puta que pariu, todo dia e' hoje! Os pelos dos meus bracos se arrepiaram. Eu nao estava sozinho. Alguem de outro plano me tocou a medula e me abencoou. Eu nao estava sozinho. Outras poucas pessoas deste plano encontraram outras pedras e estavam ali tambem. Uma abriu um livro. Outro molhou os pes na agua. Outros conversavam na areia. Criancas corriam livres por entre os penhascos. Um casal de velhinhos permancia de maos dadas, sem dizer nada. Dois amigos da terceira idade sentaram num dos bancos com vista pro mar, sem dizer nada. Nessas horas ninguem diz nada porque nao ha' nada a dizer. O que ha' 'e compartilhar. Tem muita gente feliz sozinho, mas uma frase do filme Into the Wild me veio `a mente: "a felicidade so' e' quando compartilhada". Um desafio aos solitarios felizes, como o proprio autor da frase, diga-se.
Embora nao conseguisse partir, mas satisfeito com o meu instante, levantei e parti. Cai' na estrada de novo de volta pra casa. O sol ainda estava la', tinha mais a oferecer. Os instantes conspiraram a meu favor. Cinco minutos de direcao tornaram-me sonolento. Briguei com as palpebras. Consegui ler a placa indicando a praia da pequena Encinitas e resolvi parar. Nunca estive la' antes. E me deixei guiar. Direita, esquerda, reto, aqui sim, aqui nao, cheguei numa rua sem saida, que terminava numa especie de drive-in, onde o telao era... o mar!!!! O mar imenso. O sol cozinhando os tons amarelos, indicando o por. Deitei o banco do carro e dormi. Quando acordei, o ceu estava numa variacao de cores que so' Salvador Dali. Novamente silencio, exceto o som do mar. Levantei, olhei para os lados, alguns motoristas perdidos como eu, olhando exatamente a mesma coisa que eu, olhos fixos no horizonte como eu, pensando naquele exato instante como eu. Um senhor, sentado no capo do seu carro, bem devagar virou a cabeca pra mim e fez aquela expressao com a face do tipo "puxa... o que e' isso que estamos vendo". Me senti como um dos unicos seres humanos presenciando algo completamente extraordinario. Se eramos os unicos, nao sei. Mas definitivamente era extraordinario. Olhei la' pra baixo e vi algumas pessoas paradas, em pe', tambem olhando aquele sol caindo, aquele horizonte linear, e especialmente aquele ceu pluri-tons invadindo o continente. Lembrei de outro filme, Cidade dos Anjos, da cena em que os anjos se reunem na praia para contemplar o por-do-sol.
Assim que a Terra se virou a ponto de nao vermos mais a bola de fogo, um a um foi partindo.
****************
Dias depois de ter tido aquela conversa com o Vitor no chuveiro, ensinei para os meninos uma cancao de ninar.
Todo dia e' hoje
Eu quero paz, voce nao ve?
Eu trouxe um presente
Especialmente pra voce
Tem bala, livro, video,
Muita coisa pra brincar
Entao fique contente,
O meu amigo vai falar
Mamae te dou um beijo
Meu papai, um abracao
Todos de maos dadas
Esta' valendo a reuniao
O Vitor e o Dante
E quem mais puder chegar
Ganha quem primeiro o meu amigo revelar
Esta' dentro de mim
E nos seus olhos posso ver
Entao fique contente,
Esta' quente, pode crer
Mas isso tanto faz
Logo mais vira' o sol
Todos de maos dadas
Tem anjinhos ao redor
Mamae te dou um beijo
Meu papai, um abracao
Todos de maos dadas
Esta' valendo a reuniao
Outono. O sol brilhando e o vento frio. Sempre seco. Ate' ai', tudo bem, porque e' seco tambem no calor. Acontece que a janela da estrada e' implacavel comigo. A estrada beirando o oceano. Injeta na minha cabeca uma quantidade absurda de pensamentos para o futuro, de analises do presente e de lembrancas do passado. As lembrancas do passado sao crueis, no sentido de que as boas memorias duelam com as ruins. E as ruins sempre tendem a vencer, uma vez que vao direto na jugular. Magoam muito. Entao eu saio da briga e fico com as boas, pois elas fazem-me sentir um verdadeiro felizardo, um vencedor. Ai' eu lembro o quanto eu gosto da minha vida, de mim e das pessoas do meu convivio. Eu nao tenho o direito de reclamar, pois a maior ficha que aprendi e' que as coisas se resolvem. De um jeito ou de outro, mas se resolvem. Entao estou livre e consigo retomar os meus sentidos para apenas sentir o cheiro do ar que respiro, as cores que vejo, o tempo que gasto.
E a grande equacao do presente, a trave que me sustenta, o corretor que coloca tudo em seu devido lugar, me foi dada de graca pela sensibilidade de uma crianca. Sem eu pedir. Meu filho apenas me deu a chave que os adultos nao conseguem usar, nem eu. Mas tento, juro. Durante um banho fraterno, debaixo da agua morna, com todo o amor puro que um pai e um filho podem trocar, ele me disse assim: "pai, pensa bem, todo dia e' hoje. Nao tem amanha, pois quando chegar amanha voce vai me dizer que e' hoje. Entao nao existe amanha. Todo dia e' hoje." Obvio, simples, direto, curto, sem firulas. "Todo dia e' hoje" e' a frase mais inteligente que ouvi em toda a minha vida. Ele sacou tudo sem precisar ler O Poder do Agora, que custei a deglutir meses depois. Tomara que a sociedade nao interfira na consciencia dele.
O fato e' que cheguei em La Jolla e tomei uma cerveja para curar a ressaca da noite anterior. Cheia de pedras e pequenos penhascos, La Jolla e' um convite para aqueles que querem ficar em silencio ao som do mar e apenas olhar quao longe e' o horizonte. O dia foi lindo. Encontrei a minha rocha e sentei. Fiquei pensando que chegaria na Asia se pulasse ali e saisse nadando ate' a outra margem do oceano. Puxa, os primeiros navegadores realmente eram destemidos. Cair no mar so' pra ver onde vai dar exige uma capacidade de despreendimento de poucos. Tao assustador como entrar numa nave apontada para qualquer constelacao acima das minhas orelhas e partir. Acho que eu partiria. Se extra-terrestres me fizessem o convite, acho que Vitor e Dante entenderiam.
E as gaivotas? Como e' possivel fazer voos baixos como aqueles? Rentes `a superficie. Alias, como e' possivel voar??? Voar e' do caralho. Os seres vivos que voam sao melhores que os outros. Estao acima da media. Sao incomparaveis, porque eles sempre -EM QUALQUER SITUACAO, SOB QUALQUER ARGUMENTO - poderao dizer: "ah, mas eu posso voar". "Eu posso voar" acaba com qualquer conversa. E ponto final.
De forma que o brilho do sol criou, sobre a agua do mar, uma trilha de cacos de espelhos refletindo bem na minha direcao. E eu pensei "como alguma magoa existe em mim se o que esta' sendo oferecido `a mim e' divino?" "como eu posso querer fazer algum plano para o futuro se este instante e' unico, irreversivel e so' meu?" Lembrei que vinte anos atras a vida dobrou uma esquina sem a minha consulta ou permissao. E passou tao rapido... Tentei me imaginar vinte anos adiante lembrando da tarde em La Jolla. A existencia e' grande demais para evitar o presente. Nao ha' nada antes nem depois. Todo dia e' hoje. Todo dia e' hoje. Puta que pariu, todo dia e' hoje! Os pelos dos meus bracos se arrepiaram. Eu nao estava sozinho. Alguem de outro plano me tocou a medula e me abencoou. Eu nao estava sozinho. Outras poucas pessoas deste plano encontraram outras pedras e estavam ali tambem. Uma abriu um livro. Outro molhou os pes na agua. Outros conversavam na areia. Criancas corriam livres por entre os penhascos. Um casal de velhinhos permancia de maos dadas, sem dizer nada. Dois amigos da terceira idade sentaram num dos bancos com vista pro mar, sem dizer nada. Nessas horas ninguem diz nada porque nao ha' nada a dizer. O que ha' 'e compartilhar. Tem muita gente feliz sozinho, mas uma frase do filme Into the Wild me veio `a mente: "a felicidade so' e' quando compartilhada". Um desafio aos solitarios felizes, como o proprio autor da frase, diga-se.
Embora nao conseguisse partir, mas satisfeito com o meu instante, levantei e parti. Cai' na estrada de novo de volta pra casa. O sol ainda estava la', tinha mais a oferecer. Os instantes conspiraram a meu favor. Cinco minutos de direcao tornaram-me sonolento. Briguei com as palpebras. Consegui ler a placa indicando a praia da pequena Encinitas e resolvi parar. Nunca estive la' antes. E me deixei guiar. Direita, esquerda, reto, aqui sim, aqui nao, cheguei numa rua sem saida, que terminava numa especie de drive-in, onde o telao era... o mar!!!! O mar imenso. O sol cozinhando os tons amarelos, indicando o por. Deitei o banco do carro e dormi. Quando acordei, o ceu estava numa variacao de cores que so' Salvador Dali. Novamente silencio, exceto o som do mar. Levantei, olhei para os lados, alguns motoristas perdidos como eu, olhando exatamente a mesma coisa que eu, olhos fixos no horizonte como eu, pensando naquele exato instante como eu. Um senhor, sentado no capo do seu carro, bem devagar virou a cabeca pra mim e fez aquela expressao com a face do tipo "puxa... o que e' isso que estamos vendo". Me senti como um dos unicos seres humanos presenciando algo completamente extraordinario. Se eramos os unicos, nao sei. Mas definitivamente era extraordinario. Olhei la' pra baixo e vi algumas pessoas paradas, em pe', tambem olhando aquele sol caindo, aquele horizonte linear, e especialmente aquele ceu pluri-tons invadindo o continente. Lembrei de outro filme, Cidade dos Anjos, da cena em que os anjos se reunem na praia para contemplar o por-do-sol.
Assim que a Terra se virou a ponto de nao vermos mais a bola de fogo, um a um foi partindo.
****************
Dias depois de ter tido aquela conversa com o Vitor no chuveiro, ensinei para os meninos uma cancao de ninar.
Todo dia e' hoje
Eu quero paz, voce nao ve?
Eu trouxe um presente
Especialmente pra voce
Tem bala, livro, video,
Muita coisa pra brincar
Entao fique contente,
O meu amigo vai falar
Mamae te dou um beijo
Meu papai, um abracao
Todos de maos dadas
Esta' valendo a reuniao
O Vitor e o Dante
E quem mais puder chegar
Ganha quem primeiro o meu amigo revelar
Esta' dentro de mim
E nos seus olhos posso ver
Entao fique contente,
Esta' quente, pode crer
Mas isso tanto faz
Logo mais vira' o sol
Todos de maos dadas
Tem anjinhos ao redor
Mamae te dou um beijo
Meu papai, um abracao
Todos de maos dadas
Esta' valendo a reuniao
domingo, 25 de novembro de 2007
Violencia dos anjos
- Ei, me paga um prato de comida?
- Esta com fome e sem dinheiro?
- Sim.
- E por que?
- Porque estou desempregado.
- Por que?
- Porque nao tem emprego.
- Entendo. Ok, entra ai' que eu pago.
Nao consigo negar um prato de comida. O cara te pede um prato de comida, nao da' pra negar, qualquer que seja a origem do sujeito. A violencia angelena faz muitos sem-teto. A cada esquina, a cada ponto de onibus ha' um americano abandonado. Muitos estao na rua por opcao mesmo, pois para eles a menor contribuicao do governo ja' basta para a sobrevivencia. Alguns sao originais e vao direto ao ponto: encontrei um que escreveu num papelao "pra que mentir? quero beber cerveja". Ta' ai' alguem pra virar a noite tomando cerveja. O que me pediu comida era um tipico red-neck: pescoco avermelhado, bigodao, camisa por dentro da calca, botas - dificil encontrar um americano do interior sujeitando-se a tanto.
E esse era um dia que queria apenas ficar tranquilo, sem nada pra pensar. Foi um dos mais felizes da minha vida: naquela noite vi um show do Van Halen, com 30 dolares de cerveja na corrente sanguinea. Que oportunidade eu tive. Ali lembrei de tanta gente, senti falta de tanta coisa, me isolei outra vez com tamanha vontade.
Sai' do ginasio misturado na multidao. Leve. Realmente feliz. Caminhei pelo centro de Los Angeles ate' o metro mais proximo. A estacao estava cheia. Chegou o trem, entrei, me agachei diante da porta do vagao. Na parada seguinte, bem na parada seguinte, uma mulher entrou com uma bicicleta e bloqueou qualquer passagem minha. Tudo bem, eu nao precisava descer nem sair dali. O metro, naquela hora da noite e naquela regiao, so e' frequentado por negros e latinos. Brancos quase nao usam metro: vao de carro. E' a face mais escancarada da diferenca de classe da sociedade. O condutor deu sinal de partida, a mulher da bicicleta falou alguma coisa comigo, mas eu nao consigo entender a lista de girias e o jeito de falar dos negros angelenos. Coisa de gangue. O namorado dela apareceu. A cara do Mike Tyson. Nao abri a boca.
Quando as portas estavam se fechando, ele as impediu. Queria que a namorada saisse. Ela nao saiu. E ficaram la', ele ordenando, segurando as portas e ela negando. Mesmo com os chamados insistentes do condutor, atraves do sistema de radio e cameras internas, ele nao deu a minima. Por instinto, apontei meus olhos para todas as direcoes possiveis, procurando identificar como sair dali em caso de sangue quente. Nao tinha como. O namorado nao perdeu a paciencia. Quem perdeu foi um sujeito tipico de gangue de latinos que estava sentado na outra ponta do vagao. Ele veio andando a passos largos em nossa (eu e o casal de namorados) direcao. Enfiou a mao na mochila, sugerindo que estivesse prestes a sacar uma arma. Pensei de novo: pra onde vou correr? Eu estava sem saida. Alguem pediu calma ao latino: porra, nao faca isso. Ele entrou no bate-boca com o cara, exigindo que liberasse as portas. O cara nao cedeu e o chamou pra briga la' fora, impedindo que o trem partirsse. Parecia que ia piorar, mas a namorada teve a brilhante ideia de sair. Pronto, resolvido o problema. Simples assim.
Relaxei de novo.
- Esta com fome e sem dinheiro?
- Sim.
- E por que?
- Porque estou desempregado.
- Por que?
- Porque nao tem emprego.
- Entendo. Ok, entra ai' que eu pago.
Nao consigo negar um prato de comida. O cara te pede um prato de comida, nao da' pra negar, qualquer que seja a origem do sujeito. A violencia angelena faz muitos sem-teto. A cada esquina, a cada ponto de onibus ha' um americano abandonado. Muitos estao na rua por opcao mesmo, pois para eles a menor contribuicao do governo ja' basta para a sobrevivencia. Alguns sao originais e vao direto ao ponto: encontrei um que escreveu num papelao "pra que mentir? quero beber cerveja". Ta' ai' alguem pra virar a noite tomando cerveja. O que me pediu comida era um tipico red-neck: pescoco avermelhado, bigodao, camisa por dentro da calca, botas - dificil encontrar um americano do interior sujeitando-se a tanto.
E esse era um dia que queria apenas ficar tranquilo, sem nada pra pensar. Foi um dos mais felizes da minha vida: naquela noite vi um show do Van Halen, com 30 dolares de cerveja na corrente sanguinea. Que oportunidade eu tive. Ali lembrei de tanta gente, senti falta de tanta coisa, me isolei outra vez com tamanha vontade.
Sai' do ginasio misturado na multidao. Leve. Realmente feliz. Caminhei pelo centro de Los Angeles ate' o metro mais proximo. A estacao estava cheia. Chegou o trem, entrei, me agachei diante da porta do vagao. Na parada seguinte, bem na parada seguinte, uma mulher entrou com uma bicicleta e bloqueou qualquer passagem minha. Tudo bem, eu nao precisava descer nem sair dali. O metro, naquela hora da noite e naquela regiao, so e' frequentado por negros e latinos. Brancos quase nao usam metro: vao de carro. E' a face mais escancarada da diferenca de classe da sociedade. O condutor deu sinal de partida, a mulher da bicicleta falou alguma coisa comigo, mas eu nao consigo entender a lista de girias e o jeito de falar dos negros angelenos. Coisa de gangue. O namorado dela apareceu. A cara do Mike Tyson. Nao abri a boca.
Quando as portas estavam se fechando, ele as impediu. Queria que a namorada saisse. Ela nao saiu. E ficaram la', ele ordenando, segurando as portas e ela negando. Mesmo com os chamados insistentes do condutor, atraves do sistema de radio e cameras internas, ele nao deu a minima. Por instinto, apontei meus olhos para todas as direcoes possiveis, procurando identificar como sair dali em caso de sangue quente. Nao tinha como. O namorado nao perdeu a paciencia. Quem perdeu foi um sujeito tipico de gangue de latinos que estava sentado na outra ponta do vagao. Ele veio andando a passos largos em nossa (eu e o casal de namorados) direcao. Enfiou a mao na mochila, sugerindo que estivesse prestes a sacar uma arma. Pensei de novo: pra onde vou correr? Eu estava sem saida. Alguem pediu calma ao latino: porra, nao faca isso. Ele entrou no bate-boca com o cara, exigindo que liberasse as portas. O cara nao cedeu e o chamou pra briga la' fora, impedindo que o trem partirsse. Parecia que ia piorar, mas a namorada teve a brilhante ideia de sair. Pronto, resolvido o problema. Simples assim.
Relaxei de novo.
terça-feira, 20 de novembro de 2007
Santos e Pecadores
- Hey Daniel, vamos fechar o restaurante tarde hoje e eu não estou com a menor vontade de dirigir até Orange County. E o pior é que eu abro o restaurante amanhã cedo. Dá pra dormir lá na sua casa?
- Beleza, cara, sem problemas.
- Cool, a gente compra umas cervejas e vamos pra lá então.
Daniel é um venezuelano bacana, que aprendeu a cozinhar feijoada e cortar churrasco muito bem. Fala inglês e português fluentemente. É bom de papo. A nossa conversa já havia caído na política social de São Paulo e Caracas, na sociedade americana, nas canetadas de Chavez, nos discursos de Lula, quando a placa de open virou para close. Fechei rápido o caixa, ele limpou rápido as tábuas de cortar carne, pegamos nossa gorjeta e saímos.
Bebemos todas assistindo ao documentário Favela Rising, que ele havia acabado de ganhar não sei de quem e queria me mostrar. Conta a história do grupo carioca Afro-Reggae. Queimamos as últimas pontas também, já putos com as falhas sociais dos nossos países. Muita miséria. Muita violência. Muita coisa errada e bla bla bla. Percebemos a tensão e mudamos o rumo da prosa pra melhorar a energia. "Cara, vamos apenas curtir essa merda!". Não deu outra. Já era meia-noite, eu pensava seriamente em dormir, quando Daniel recebe um telefonema.
- Onde? Double S? Saints and Sinners? Beleza, disse ao celular.
- E aí Gui, vamo lá?, disse à mim.
- Agora, disse à ele.
Tudo estava bem. Os venezuelanos me pagaram uma rodada de cerveja e outra de tequila. curtíamos a música, o show pirotécnico das duas bartenders mais lindas da Venice Blvd. Mas alguém me segurou pelos ombros.
- You! Get tha fuck outta here right now!!! Sai daqui agora!!, era o segurança, daqueles com as orelhas cobertas de piercings e tatuagem até o pescoço.
- What? What happened? What tha fuck is going on? O que foi cara?, era eu.
Ele nem me respondeu. Simplesmente me colocou pra fora. Lá fora resolveu me dizer algo.
- Por que você vomitou no meu camarada?
- O que?
- Não minta pra mim, seu filho da puta!!
- Porra, eu não estou mentindo porra nenhuma! Não tenho a menor idéia do que você está falando! Você pegou o cara errado!
- Vomitou sim!
- Eu não vomitei, caralho! Não vomitei nem em mim, nem no banheiro, nem em ninguém! Você está entendendo o que estou dizendo?
Os venezuelanos saíram pra ver o que estava acontecendo. Eles conhecem bem os seguranças. O cara contou a mesma história, mas mudou de idéia e teve a brilhante idéia de chamar a "vítima". Enquanto isso a turma dos pitboys americanos já havia percebido a movimentação e só estava esperando a primeira faísca pra cair na porrada. De rabo de olho, eu identifiquei pelo menos três planos de fuga, caso não fosse possível sair da pancadaria. Quero dizer, se não fosse possível sair da pancadaria, eu não fugiria de qualquer maneira.
Chegou a vítima. Era um maluco qualquer da turma dos cubanos. Ele olhou bem pra minha cara e... "Nah, não é esse."
E o que era tenso virou ternura. Como num botão on-off, tudo se transformou numa camaradagem incrível: abraços, pedidos de desculpas, apresentações de amigos e amigas. Cubanos, venezuelanos, americanos e seguranças confraternizaram-se comigo e me colocaram pra dentre da boate outra vez. Eu virei popular. Os cubanos me pagaram duas rodadas de cerveja. Os venezuelanos, mais outra. Ganhei a proteção dos pitboys americanos quando eles descobriram que eu era brasileiro. Pensei "de quem esses caras são fãs, agora? Pelé... não. Ronaldinho... talvez. Romário... pode ser. Carmem Miranda... não, difícil. Roberto Carlos... Nelson Ned... não, esses são ídolos dos mexicanos..."
- Cara! Você é brasileiro! Nossa, eu conheço vários Gracies!!!
Claro, evidentemente ele lutava jiu-jitsu. Voltando à música, cada pitboy que passava por mim era um tapinha nas costas. "Whassup man!"
Fiquei tão em casa que não aconteceu absolutamente nada quando, por engano, diga-se, entrei no banheiro das mulheres. Eu precisava jogar fora toda aquela cerveja, pelas vias normais, é verdade. E com urgência. Não prestei atenção nas portas. Eu já me recolhia, fechando o zíper, me viro e
- O que você está fazendo aqui?
- Opa, o que VOCÊ está fazendo aqui atrás de mim?
- Ué, aqui é o banheiro das mulheres!
- Não! Não? É? Vamos ver.
Fomos.
- Puuuutz, me desculpa! Sério! Nem tinha visto! Foi mal.
- Tá, tá, tá, tudo bem.
- Beleza, cara, sem problemas.
- Cool, a gente compra umas cervejas e vamos pra lá então.
Daniel é um venezuelano bacana, que aprendeu a cozinhar feijoada e cortar churrasco muito bem. Fala inglês e português fluentemente. É bom de papo. A nossa conversa já havia caído na política social de São Paulo e Caracas, na sociedade americana, nas canetadas de Chavez, nos discursos de Lula, quando a placa de open virou para close. Fechei rápido o caixa, ele limpou rápido as tábuas de cortar carne, pegamos nossa gorjeta e saímos.
Bebemos todas assistindo ao documentário Favela Rising, que ele havia acabado de ganhar não sei de quem e queria me mostrar. Conta a história do grupo carioca Afro-Reggae. Queimamos as últimas pontas também, já putos com as falhas sociais dos nossos países. Muita miséria. Muita violência. Muita coisa errada e bla bla bla. Percebemos a tensão e mudamos o rumo da prosa pra melhorar a energia. "Cara, vamos apenas curtir essa merda!". Não deu outra. Já era meia-noite, eu pensava seriamente em dormir, quando Daniel recebe um telefonema.
- Onde? Double S? Saints and Sinners? Beleza, disse ao celular.
- E aí Gui, vamo lá?, disse à mim.
- Agora, disse à ele.
Tudo estava bem. Os venezuelanos me pagaram uma rodada de cerveja e outra de tequila. curtíamos a música, o show pirotécnico das duas bartenders mais lindas da Venice Blvd. Mas alguém me segurou pelos ombros.
- You! Get tha fuck outta here right now!!! Sai daqui agora!!, era o segurança, daqueles com as orelhas cobertas de piercings e tatuagem até o pescoço.
- What? What happened? What tha fuck is going on? O que foi cara?, era eu.
Ele nem me respondeu. Simplesmente me colocou pra fora. Lá fora resolveu me dizer algo.
- Por que você vomitou no meu camarada?
- O que?
- Não minta pra mim, seu filho da puta!!
- Porra, eu não estou mentindo porra nenhuma! Não tenho a menor idéia do que você está falando! Você pegou o cara errado!
- Vomitou sim!
- Eu não vomitei, caralho! Não vomitei nem em mim, nem no banheiro, nem em ninguém! Você está entendendo o que estou dizendo?
Os venezuelanos saíram pra ver o que estava acontecendo. Eles conhecem bem os seguranças. O cara contou a mesma história, mas mudou de idéia e teve a brilhante idéia de chamar a "vítima". Enquanto isso a turma dos pitboys americanos já havia percebido a movimentação e só estava esperando a primeira faísca pra cair na porrada. De rabo de olho, eu identifiquei pelo menos três planos de fuga, caso não fosse possível sair da pancadaria. Quero dizer, se não fosse possível sair da pancadaria, eu não fugiria de qualquer maneira.
Chegou a vítima. Era um maluco qualquer da turma dos cubanos. Ele olhou bem pra minha cara e... "Nah, não é esse."
E o que era tenso virou ternura. Como num botão on-off, tudo se transformou numa camaradagem incrível: abraços, pedidos de desculpas, apresentações de amigos e amigas. Cubanos, venezuelanos, americanos e seguranças confraternizaram-se comigo e me colocaram pra dentre da boate outra vez. Eu virei popular. Os cubanos me pagaram duas rodadas de cerveja. Os venezuelanos, mais outra. Ganhei a proteção dos pitboys americanos quando eles descobriram que eu era brasileiro. Pensei "de quem esses caras são fãs, agora? Pelé... não. Ronaldinho... talvez. Romário... pode ser. Carmem Miranda... não, difícil. Roberto Carlos... Nelson Ned... não, esses são ídolos dos mexicanos..."
- Cara! Você é brasileiro! Nossa, eu conheço vários Gracies!!!
Claro, evidentemente ele lutava jiu-jitsu. Voltando à música, cada pitboy que passava por mim era um tapinha nas costas. "Whassup man!"
Fiquei tão em casa que não aconteceu absolutamente nada quando, por engano, diga-se, entrei no banheiro das mulheres. Eu precisava jogar fora toda aquela cerveja, pelas vias normais, é verdade. E com urgência. Não prestei atenção nas portas. Eu já me recolhia, fechando o zíper, me viro e
- O que você está fazendo aqui?
- Opa, o que VOCÊ está fazendo aqui atrás de mim?
- Ué, aqui é o banheiro das mulheres!
- Não! Não? É? Vamos ver.
Fomos.
- Puuuutz, me desculpa! Sério! Nem tinha visto! Foi mal.
- Tá, tá, tá, tudo bem.
sábado, 10 de novembro de 2007
Reencontrei Juan
Reencontrei Juan. Semanas antes de comprar meu carro, esse cara foi a luz no fim do tunel que eu precisava. Naquela noite, eu havia fechado o restaurante e nao consegui pegar o onibus que me levaria ate' em casa. Essa mesma linha, depois da meia-noite, encerra num terminal na metade do caminho. Nao tinha opcao, apostei nessa ideia na esperanca de que alguma solucao - tipo uma linha extra, ou um ponto de taxi disponivel - pudesse estar la'. Nao estava.
O onibus estacionou, eu desci com a mochila nas costas (era o unico passageiro), o motorista apagou as luzes da conducao e foi embora. O terminal de onibus estava completamente vazio e quieto. Tao silencioso que podia ouvir casais de grilos discutindo a relacao. Nada. Ninguem para que ao menos eu pudesse perguntar "voce tem ideia do que eu faco agora?". Ao meu redor, um patio levemente iluminado. E eu nao tenho celular. Pensei em usar um telefone publico, mas nao encontrei. Mesmo se encontrasse, nao adiataria grande coisa, uma vez que eu estava sem moedas nem cartoes pra completar a ligacao. Enfim, situacoes estranhas em que a gente se mete vez ou outra e nao entende o por que, apenas respira fundo e se pergunta "que porra eu to fazendo aqui mesmo?".
Nao me desesperei. Sai do terminal, caminhando pelas ruas. O que tambem nao e' grande negocio na California, uma vez que as pessoas nao tem o habito de andar pelas ruas, ainda mais durante a madrugada. Nao passava taxi algum nem qualquer carro. Mas a lua estava la'. Cheia, solida. Logo num dos primeiros cruzamentos eu senti um alivio, uma possibilidade de conseguir voltar pra casa. Vi uma loja de bebidas aberta, luzes acesas e aquele neon piscando (ou falhando) "open", "open", "open".
Acelerei o passo, alcancei, entrei e... "oi, alguem ai'?" Num primeiro momento, nao ouvi resposta alguma. Perguntei de novo. Juan apareceu. Gordo, bracos cobertos de tatuagens, cabelos compridos, camiseta preta. Roqueiro nato. Calmo, fala mansa, simpatico.
"Hey, posso ajudar?"
"Espero que sim, perdi meu onibus e preciso pegar um taxi pra voltar pra casa. Voce tem algum telefone que eu possa usar e alguma companhia que eu possa chamar?"
"Yeah, espera um pouco"
Juan voltou para tras do balcao, pegou o telefone e discou. "Fala cara, tudo bem? Manda um carro pra ca, beleza?" Colocou o telefone no gancho e virou pra mim. "O carro ja' ta' chegando. 15 minutos".
Eu fiquei com aquela cara de interrogacao. "Who the hell is he calling?" Decidi logo quebrar qualquer tentativa de gelar o ambiente.
"Bom, meu nome e' Guilherme"
"Legal, o meu e' Juan, tudo bem?"
"Certo. Juan, alem das bebidas, tem algo pra comer aqui?"
"Ali"
Me apontou para o balcao de comidas mexicas e demais tranqueiras junkies. Peguei um burrito e uma garrafa de cerveja. Entre uma mordida e outra, entre uma golada e outra, fui contando pra ele que precisava comprar um carro, que estava afins de arrumar um trampo em LA e bla bla bla. Ele me disse que era californiano, filho de pais latinos. Nao pude esticar a entrevista: o carro chegou.
"Falou cara, boa sorte"
"Obrigado, Juan, ate' mais"
Noite seguinte me vi na mesma situacao, sabendo agora onde encontrar refugio. Entrei na loja de bebidas e Juan ja foi pegando o telefone, rindo. "Hey, manda um carro pra ca' de novo". Nao estava com fome, mas estava com uma puta sede. Comprei uma cerveja. Como eu era o unico cliente daquela madrugada, sentamos na calcada pra bater papo. Juan nao esperava que eu fosse brasileiro. Achava que eu era europeu (engracado, outras pessoas tambem me disseram isso). E como evidentemente falavamos de rock n roll, ele ficou mais feliz ainda ao descobrir minha nacionalidade. Era fa de Sepultura. Ai' a conversa rolou para pura diversao e aquele festival de "yeaahh" "puutaaa que pariu!" "do caralhooo!". Eu disse a ele que vi o ultimo show do Sepultura no Olimpia, em Sao Paulo, ainda com Max Cavalera nos vocais. Mas Juan veio com uma historia muito melhor.
Ele pegou um show do Sepultura em LA. Agora nao me recordo onde. Acabou ficando para o after-party e encontrou todos os caras da banda. Bebeu todas e fumou todos com Max.
"Cara, aquela noite foi foda..."
"E', imagino..."
O taxi chegou.
"Valeu, brother, se precisar, aparece ai'"
"Nossa, fechado cara!"
Mas eu comprei o carro e nunca mais havia voltado. Alias, na noite em que bati o hondinha, eu planejei passar por la' pra reve-lo, comprar uma caixa de cerveja e mostrar a caranga. Nao o fiz. Por algum motivo eu passei direto. E quadras a frente trombei com uma SUV novinha... nao, nao quero falar disso de novo.
Eu dizia que reencontrei Juan. Noite dessas finalmente parei por la'.
"E ai' cara! Sumiu. Quer um taxi?"
"Nao, valeu. Hoje vim de carro. Passei aqui pra te cumprimentar e comprar minha caixinha de cerveja"
"Comprou um carro?"
"Comprei"
"Bom?"
"A piece of shit"
"Piece of shit? Hahaha, legal"
"Honda 91. Mas e' o que esta' me salvando ne', me levando para os lugares"
"Ta' certo. E o rock?"
"Vi algumas coisas, comprado CDs. Fui no Foo Fighters e os caras fizeram uma jam com o Lemmy. Genial?"
"Lemmy tava la'? Que maravilha"
Chegaram alguns clientes, ele precisava trabalhar. Paguei minha caixa de cerveja e sai'.
"Falou, cara, aparece ai'"
"Beleza, Juan, ate' mais!"
Juan e' um cara legal.
O onibus estacionou, eu desci com a mochila nas costas (era o unico passageiro), o motorista apagou as luzes da conducao e foi embora. O terminal de onibus estava completamente vazio e quieto. Tao silencioso que podia ouvir casais de grilos discutindo a relacao. Nada. Ninguem para que ao menos eu pudesse perguntar "voce tem ideia do que eu faco agora?". Ao meu redor, um patio levemente iluminado. E eu nao tenho celular. Pensei em usar um telefone publico, mas nao encontrei. Mesmo se encontrasse, nao adiataria grande coisa, uma vez que eu estava sem moedas nem cartoes pra completar a ligacao. Enfim, situacoes estranhas em que a gente se mete vez ou outra e nao entende o por que, apenas respira fundo e se pergunta "que porra eu to fazendo aqui mesmo?".
Nao me desesperei. Sai do terminal, caminhando pelas ruas. O que tambem nao e' grande negocio na California, uma vez que as pessoas nao tem o habito de andar pelas ruas, ainda mais durante a madrugada. Nao passava taxi algum nem qualquer carro. Mas a lua estava la'. Cheia, solida. Logo num dos primeiros cruzamentos eu senti um alivio, uma possibilidade de conseguir voltar pra casa. Vi uma loja de bebidas aberta, luzes acesas e aquele neon piscando (ou falhando) "open", "open", "open".
Acelerei o passo, alcancei, entrei e... "oi, alguem ai'?" Num primeiro momento, nao ouvi resposta alguma. Perguntei de novo. Juan apareceu. Gordo, bracos cobertos de tatuagens, cabelos compridos, camiseta preta. Roqueiro nato. Calmo, fala mansa, simpatico.
"Hey, posso ajudar?"
"Espero que sim, perdi meu onibus e preciso pegar um taxi pra voltar pra casa. Voce tem algum telefone que eu possa usar e alguma companhia que eu possa chamar?"
"Yeah, espera um pouco"
Juan voltou para tras do balcao, pegou o telefone e discou. "Fala cara, tudo bem? Manda um carro pra ca, beleza?" Colocou o telefone no gancho e virou pra mim. "O carro ja' ta' chegando. 15 minutos".
Eu fiquei com aquela cara de interrogacao. "Who the hell is he calling?" Decidi logo quebrar qualquer tentativa de gelar o ambiente.
"Bom, meu nome e' Guilherme"
"Legal, o meu e' Juan, tudo bem?"
"Certo. Juan, alem das bebidas, tem algo pra comer aqui?"
"Ali"
Me apontou para o balcao de comidas mexicas e demais tranqueiras junkies. Peguei um burrito e uma garrafa de cerveja. Entre uma mordida e outra, entre uma golada e outra, fui contando pra ele que precisava comprar um carro, que estava afins de arrumar um trampo em LA e bla bla bla. Ele me disse que era californiano, filho de pais latinos. Nao pude esticar a entrevista: o carro chegou.
"Falou cara, boa sorte"
"Obrigado, Juan, ate' mais"
Noite seguinte me vi na mesma situacao, sabendo agora onde encontrar refugio. Entrei na loja de bebidas e Juan ja foi pegando o telefone, rindo. "Hey, manda um carro pra ca' de novo". Nao estava com fome, mas estava com uma puta sede. Comprei uma cerveja. Como eu era o unico cliente daquela madrugada, sentamos na calcada pra bater papo. Juan nao esperava que eu fosse brasileiro. Achava que eu era europeu (engracado, outras pessoas tambem me disseram isso). E como evidentemente falavamos de rock n roll, ele ficou mais feliz ainda ao descobrir minha nacionalidade. Era fa de Sepultura. Ai' a conversa rolou para pura diversao e aquele festival de "yeaahh" "puutaaa que pariu!" "do caralhooo!". Eu disse a ele que vi o ultimo show do Sepultura no Olimpia, em Sao Paulo, ainda com Max Cavalera nos vocais. Mas Juan veio com uma historia muito melhor.
Ele pegou um show do Sepultura em LA. Agora nao me recordo onde. Acabou ficando para o after-party e encontrou todos os caras da banda. Bebeu todas e fumou todos com Max.
"Cara, aquela noite foi foda..."
"E', imagino..."
O taxi chegou.
"Valeu, brother, se precisar, aparece ai'"
"Nossa, fechado cara!"
Mas eu comprei o carro e nunca mais havia voltado. Alias, na noite em que bati o hondinha, eu planejei passar por la' pra reve-lo, comprar uma caixa de cerveja e mostrar a caranga. Nao o fiz. Por algum motivo eu passei direto. E quadras a frente trombei com uma SUV novinha... nao, nao quero falar disso de novo.
Eu dizia que reencontrei Juan. Noite dessas finalmente parei por la'.
"E ai' cara! Sumiu. Quer um taxi?"
"Nao, valeu. Hoje vim de carro. Passei aqui pra te cumprimentar e comprar minha caixinha de cerveja"
"Comprou um carro?"
"Comprei"
"Bom?"
"A piece of shit"
"Piece of shit? Hahaha, legal"
"Honda 91. Mas e' o que esta' me salvando ne', me levando para os lugares"
"Ta' certo. E o rock?"
"Vi algumas coisas, comprado CDs. Fui no Foo Fighters e os caras fizeram uma jam com o Lemmy. Genial?"
"Lemmy tava la'? Que maravilha"
Chegaram alguns clientes, ele precisava trabalhar. Paguei minha caixa de cerveja e sai'.
"Falou, cara, aparece ai'"
"Beleza, Juan, ate' mais!"
Juan e' um cara legal.
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